Sexta-feira, 30 de Março de 2007
Os Mitos de Vilarinho da Furna
Da AMBIO:
Caro Henrique,
Afinal, a sua memória não é assim tão péssima como diz. Ou será que foi ver
os dossiers?
"Enfim, cansado de o ver esbater o seu projecto turístico de valorização do
património que foi de Vilarinho, através de uma associação de que é
presidente há um ror de anos, servindo-se da cortina de fumo da mitologia de
Vilarinho (onde o mandato de cada juiz era apenas de seis meses pelo sim,
pelo não) e dos pretensos benefícios para a conservação (propondo a vedação
integral da encosta de Vilarinho, por exemplo)" - (From: "henrique pereira
dos santos" Sent: Monday, March 05, 2007 9:20 PM)
Pois, pelos vistos, ainda se vai cansar mais, porque o projecto de
"valorização do património que foi de Vilarinho" é para continuar por
gerações. Os seus descendentes, até à vigésima quinta geração, pelo menos, hão-de,
com certeza, continuar a ouvir falar dele. Porque, se é facto que a aldeia
de Vilarinho da Furna desapareceu (para gáudio de muita gente, ao que
parece), grande parte do seu património subsiste, com milhares de hectares
de terreno nas Serras da Amarela e do Gerês.
Alguma coisa temos feito (está à vista, publicado, divulgado), embora não
tanto como a gente de Vilarinho e eu próprio gostaríamos. Mas quem é que
consegue fazer tudo o que quer?
E tem sido feito, de facto e não só, pela AFURNA - Associação dos Antigos
Habitantes de Vilarinho da Furna, criada em 3/10/1985
(http://afurna.no.sapo.pt/ ), de que sou sócio fundador e a que tenho a
honra de presidir à Direcção há quase 22 anos. Parafraseando Armstrong,
"muito tempo para um homem, uma ninharia para a Humanidade"...
Trata-se de uma Associação cultural e ambiental, sem fins lucrativos, nos
termos da lei portuguesa, em tempo oportuno inscrita no INAMB/IPAMB/IA.
E se, em Vilarinho, havia o Juiz, que mudava de seis em seis meses, também
havia outras instituições como "Os Seis", que podiam ser reconduzidos em
eleição, também de seis em seis meses e, conforme as necessidades, o que
hoje equivaleria a "Comissões", para tratar de assuntos específicos, que
tanto poderiam durar dias como anos, como aconteceu com aquela que
acompanhou o processo contra o Estado de Salazar, durante uns 17 anos, até à
sentença de 15 de Outubro de 1962, em que esse mesmo Estado foi condenado a
reconhecer a propriedade privada do Monte de Vilarinho da Furna, além do
mais, "abstendo-se da prática de actos ofensivos do domínio e posse dos A.A.
e demais comproprietários"  (Tribunal Judicial da Comarca de Vila Verde,
Acção Sumária nº 4226, 2ª Secção).
Se não acredita (já vi que, para o Henrique, é sempre tudo uma questão da
"sua" fé) no que escrevi,  leia Jorge Dias, Tude de Sousa, Manuel de Azevedo
Antunes (que, por coincidência, até sou eu), e tantos outros.
N'AFURNA, as eleições realizam-se, nos termos da lei vigente e dos
respectivos Estatutos, de dois em dois anos, como também é usual na
generalidade das Associações Portuguesas. Como, este ano, vai haver eleições,
se o Henrique ou qualquer outro considerar que reúne as condições legais e
estatutárias, faça favor de se candidatar.
Porque n'AFURNA há mesmo eleições para todos os membros e órgãos, por voto
secreto, em urna.
O que não acontece com algumas associações (quanto conheço são as únicas),
fomentadas pelo SNPRCN/ICN, como "apêndices" das "Áreas Protegidas".
No caso desse "apêndice" do PNPG, nos termos  do Art.º 18.º dos Estatutos,
"O Conselho Directivo é constituído por um Presidente, que será
obrigatoriamente o Director do Parque Nacional da Peneda-Gerês, e por dois
vogais eleitos de entre os sócios fundadores". Que rica democracia!...
E o mesmo se passa com os ditos "apêndices" de outras "Áreas Protegidas".
Mas, como, em Portugal, ainda há um poder judicial independente das golpadas
de alguns funcionários do SNPRCN/ICN, tenho conhecimento de, pelo menos um
caso, em que o Tribunal da zona emitiu um parecer em que refere que, por
causa de Artigo semelhante dos Estatutos (neste caso, o 14.º), o director
"está a conflituar com as várias normas legais que dispõem sobre as
garantias de imparcialidade
e de isenção da administração pública". E a Comissão Coordenadora da Região
Norte (CCRN)  também concluiu que esses estatutos "deverão ser alterados",
visto que "as observações feitas pelo representante do Ministério Público
são oportunas e pertinentes" e o referido Director daquela "Área Protegida"
"está a contrariar normativos legais e princípios jurídicos".
Comparado com estes funcionários, o povo de Vilarinho e a sua AFURNA
continuam a exercer, mesmo, aquela democracia que aprenderam desde o berço.
Por isso, não entendo a observação do Miguel Araújo, saído, neste bate-papo,
em ajuda do Henrique: "Em todo o caso este debate tem o merito de ajudar a
clarificar as posicoes de A Furna e do Manuel Antunes (um e outro sao a
mesma coisa como referiu e bem o Henrique num trecho de conversa que o
Manuel preferiu nao responder com o argumento de que a partir desse momento
falaria com o Parque - curiosamente regressou a' conversa na ambio mas com
esta distraccao evitou confrontar-se com as afirmacoes do Henrique)"  -
(Sent: Thursday, March 15, 2007 1:20 PM).
Do dogma da Trindade, que, pelo menos, desde o Concílio de Niceia, em 325,
apesar das múltiplas heresias e dos muitos cismas, chegou até nós, já eu
tinha ouvido falar. Nos tempos mais recentes, há outro, mais prosaico, do
champô três em um. Mas do dogma de 13 (membros dos Corpos Sociais da
AFURNA), em 1 (Manuel Antunes) é que nunca me tinha passado pela cabeça.
Nove desses membros têm o seu nome no "site" d'AFURNA
(http://afurna.no.sapo.pt/ ). Isto sem contar com os seus cento e tal membros da referida Associação. É demasiada fé e teologia para qualquer
crente! Ainda bem que já não há Inquisição. Ou haverá, mesmo, e o Henrique e
o Miguel pretenderão ser os Torquemadas, cá da terra, a impor ao povo de Vilarinho da Furna como deve funcionar a nossa Associação?
Quanto ao projecto de reflorestação, que temos andado a fazer (e que tanta
confusão ainda hoje causa ao Henrique), já nos idos de 1988/89, em vez de
escolher os projectistas pelas Páginas Amarelas, solicitei aos então
Secretário de Estado da Agricultura/Florestas e Presidente do SNPRCN que me
disponibilizassem os técnicos que considerassem oportuno. Por isso, a
primeira equipa de projectistas foi constituída por um ex-Director Geral das
Florestas, um Doutorado em Silvicultura, um Eng. Silvicultor, Assessor da
DGF, e um Eng. Técnico do SNPRCN. Apenas lhes (im)pus como condição que
fizessem um projecto "tecnicamente impecável  e politicamente indiscutível".
E foi isso que foi feito. O que nos mereceu uma "menção especial" no prémio INAMB/FORD, incluindo prever vedações para que as centenas de
animais que por lá andam não comessem a plantação. O que é a coisa mais
natural do mundo para qualquer ser minimamente racional. Sei os problemas
que tive, num outro projecto de reflorestação, feito no Lindoso, por causa da
vedação rebentada  e dos bois, das vacas e dos garranos  a serem alimentados a euros!
Tanto mais que, o Monte de Vilarinho, desde, pelo menos, os anos trinta do
século passado, sempre esteve vedado, com muros de pedra, e a AFURNA tem
organizado, com alguma regularidade, idas ao Monte para reparar esses muros.
Até Jorge Dias fala de tais muros: "Houve um [Zelador] que levou a cabo a
ideia de construir um muro na serra, a separar os terrenos de Vilarinho dos
de outros povos, tornando assim mais eficaz a vigia do gado, que não pode
tão facilmente fugir para outros terrenos. Também construíram um grande muro
à volta dos seus montes de pasto, para ver se evitam que os Serviços
Florestais do Estado se apoderem do seu património, já bastante diminuído"
(Jorge Dias, Vilarinho da Furna - Uma Aldeia Comunitária, Instituto para a
Alta Cultura, Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, Porto, 1948, p.
58). Muros esses que ainda hoje podem ser contemplados por terra, por avião, por
balão, por helicóptero, por satélite. Se o Henrique tiver alguma fotografia
aérea do monte de Vilarinho, vai ver que esses muros continuam lá. Se não
tiver essa fotografia, pode vê-los no GOOGLE EARTH: é só apontar para o cume
da Serra Amarela... E verá que esses muros têm muita mais qualidade do que as vedações pindéricas, feitas pelo PNPG, no anos de 1990, com arame (nalguns casos
farpado e com ratoeiras a fogo), no coração do Gerês (onde o PNPG teve, por
largos anos, um Parque de Campismo clandestino) e em plena Mata da
Albergaria (http://afurna.no.sapo.pt/Vedacoes_no_PNPG.pdf), ao lado de Casas
Florestais abandonadas, um cenário típico de um campo de concentração
acabado de abandonar pelos nazis. Para isso se fez o PNPG?
Quanto à "cortina de fumo da mitologia de Vilarinho", de que fala o
Henrique, convenhamos que Vilarinho já começa a ser um grande mito, o que
muito nos honra. É sinal de que já entrou na História.
A História é feita de Mitos e os Mitos são feitos de História. Esta é minha,
vou registá-la, com direitos de autor!... Por muito que custe, quanto já deu
para perceber, à visão céptico-positivista-elitista da História do Henrique
Pereira dos Santos: uma História só feita de Reis, de Cavaleiros, de Nobres,
onde o Povo não tem sequer lugar para assistir a um bafúrdio em  Valdevez,
quanto mais à conquista de uma cidade como Santarém... E nem pensar entrar
nos escritos de bem-pensantes-escrevinhadores-historiadores das capitais dos
reinos/impérios. Mas olhe que já houve o Fernão Lopes, a Revolução Francesa,
e muito mais, onde o Povo tb passou a contar para a História...
Como em tempos escrevi, retomando um texto dos finais dos anos sessenta, do
século passado "(...) Este, em síntese, o passado de Vilarinho. Passado
obscuro, quase sem história! Não fosse a sua riqueza etnográfica e a
construção da barragem que pôs termo à sua existência e Vilarinho da Furna
seria hoje uma aldeia esquecida, anónima como o seu passado, qual pérola
perdida na vastidão das serras do  Minho. Tal não aconteceu, porém, porque
enquanto os olhos dos etnólogos, atentos em perscrutar a alma do povo
através da complexidade dos seus costumes, descobriram em Vilarinho uma
relíquia da velha organização comunitária, hoje agonizante, mas outrora
muito difundida na Europa, o interesse dos tecnocratas encontrou aí um dos
poucos locais apropriados para a construção de uma barragem que permitisse a
produção de uns tantos Kvz de energia" (Manuel de Azevedo Antunes, Vilarinho
da Furna - Uma Aldeia Afundada
, A Regra do Jogo, Lisboa, 1985, p. 11).
Como se vê, o Henrique, mesmo nesse aspecto, não traz nada de novo.
O que é pena, porque Vilarinho já foi tratado por etnógrafos, antropólogos,
jornalistas, biólogos, arquitectos, cineastas, sociólogos, romancistas,
poetas, paisagistas, pintores, engenheiros, políticos, juristas,
musicólogos, historiadores, economistas, clérigos, fotógrafos, detractores,
enfim, de tudo um pouco. Mas falta-nos um vate, com o estofo de um Camões
(ando a tentar votar, agora, nele, para o Maior Português, para impedir o
"Botas" de ganhar um concurso, dada a conhecida alergia deste por votações,
mas as linhas estão bloqueadas), de um Pessoa, de um Dante, de um Virgílio,
quiçá,   de um Homero (mais que mítico)! Que, de uma vez por todas, nos venha dizer:
"Cale-se quanto a Musa antiga canta,
Porque Vilarinho da Furna se levanta"!
Com consideração.
Manuel Antunes


publicado por MA às 00:43
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